Na Hipocrisia do mundo você se descobre,
e, se encontra, quando vive um grande amor
Vicente Alencar

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Nelson Rodrigues e o mensalão


Nelson Rodrigues e o mensalão

Arnaldo Jabor - O Estado de S.Paulo
                                      Depois de muito tempo, falei ontem com Nelson Rodrigues no velho telefone preto que ele atende lá no céu, entre nuvens de algodão e estrelas de purpurina. Ele riu ao telefone:
- Você só me liga quando está em crise? A crise é tua ou do País?
- Nelson, eu sou parte dos detritos da nação.
- Não faz frase, rapaz, olha a pose. Este momento do País é maravilhoso: o Brasil está assumindo a própria miséria, a própria lepra. Os brasileiros deviam se agachar no meio-fio e beber dessa sagrada lama que apareceu, com o 'negão' bisneto de escravos abolindo a corrupção. Ali está a salvação. Finalmente, os marxistas de galinheiro estão aparecendo no relatório do STF. É impressionante ver as trapalhadas que fizeram; achavam que ninguém estava vendo. Eles são parte dos cretinos fundamentais que infestam o País e se escondem sob a capa da 'revolução'. Antigamente, o cretino se escondia pelos cantos, envergonhado da própria sombra; hoje, se você subir num caixotinho de querosene "Jacaré" e falar "meu povo", eles formam uma multidão de Fla x Flus. Você pegue o Prestes, por exemplo; ele só fez errar na vida. Tudo que ele quis deu zebra, de 1935 até o fim. No entanto, quem falar mal do Prestes leva um dedo na cara: "Não admito, ouviu?!" Durante 30 anos organizaram um partido e chamaram os intelectuais, que fizeram um carnaval danado, transformando o Lula num "Padim Ciço". Mas, quando chegaram ao poder, debaixo de papel picado, resolveram se suicidar como as virgens do meu tempo: ateando fogo às vestes. Daí, a verdade inapelável: os comunistas odeiam governar; só querem 'tomar' o poder para entrar nas boquinhas, com a mentira de serem 'socialistas'. Eles acham a democracia uma vigarice burguesa para enganar as massas.
- Mas... Nelson... o proletariado sob o capitalismo...
- Para com isso, rapaz; o Homem é capitalista. Existe mercado desde o tempo dos macacos disputando minhocas no buraco. Só os cegos acreditam na "utopia" e só os profetas enxergam o óbvio. O óbvio é um Pão de Açúcar que ninguém vê. E o óbvio é que os petistas queriam fazer a "revolução" com o mensalão, ali na cara do Lula. Mas, foram mexer com a única coisa proibida: com o canalha brasileiro. O canalha é um patrimônio da nacionalidade. Desde Tomé de Souza que roubam sem parar. Pois os canalhas estavam quietos, metendo as mãos nas cumbucas do Estado, quando de repente apareceu o Zé Dirceu, achando que ia passar-lhes a perna. Os canalhas olharam maravilhados aquela burrice dos petistas e sacaram na hora: "Esses comunas acham que a gente é babaca? É tudo mané!" 
Dirceu prometia grana, mas não pagava na hora, humilhando a gangue aliada. Eles piscavam cinicamente uns para os outros, contendo o riso e preparando o bote: "Perfeitamente, camarada Dirceu."
- Você acha o que do Dirceu?
- Ele me fascina. Eu o conheci em 67, por aí... Ele vivia atracado em postes, como vira-latas. Explico: o Dirceu não podia ver um poste que ele trepava em cima e escrachava o capitalismo. Você sabe que os comunas tratam o capitalismo como uma pessoa: "Hoje o capitalismo acordou de mau humor, o capitalismo tem de morrer!" Eles falam no tal do "neoliberalismo" como se os grandes empresários de cartola tivessem resolvido: "Vamos fundar este neoliberalismo para acabar com aqueles trouxas!" Acham que a IBM, a Coca-Cola e a GM estão dando gargalhadas de bruxa de peça infantil. A velha esquerda não entendeu até hoje a grande lição de Marx: quem manda são as mercadorias, quem manda é a salsicha. Ninguém controla o Mercado. Aliás, o Marx está ali numa nuvem, exalando cava depressão.
Bem, como eu ia dizendo, o Dirceu vivia trepado em postes, falando da "utopia", que ninguém sabia o que era. Alguns sujeitos rosnavam: "Quem é essa tal de Utopia? É a mulher dele?" Pois um dia o nosso Dirceu encontrou o Lula. Foi uma festa. O Lula era o "robô" perfeito para os petistas intelectuais: operário, foice e martelo, barba e sem dedo - tinha tudo para se tornar um símbolo de santidade, um messias da USP, onde as professoras se estapeavam para pegar um autógrafo do "proletário". Os bolchevistas, desem-pregados desde 68, se deram bem quando Lula chegou ao poder: "Vamos desapropriar a grana desse Estado burguês para conquistar nossos objetivos populares". Aí, apareceu o Dirceu esfregando as mãos: "Oba! Deixa comigo, Lula!" E virou 'primeiro-ministro'. O Lula achou ótimo porque estava em fremente lua de mel consigo mesmo, segredando para dona Marisa: "Ei, mãezinha, quem diria nós aqui, hein?" E nem ligava: "Deixa que o Dirceu resolve!" E ia beijar rainhas e reis, lambido pelos grã-finos internacionais.
Foi aí que surgiu o Jefferson, denunciando o comandante da "revolução corrupta". Jefferson saiu da mentira para a verdade e o Dirceu da "verdade" para a mentira. Um é o espelho invertido do outro. O Jefferson e o Dirceu são a essência do Teatro: protagonista e antagonista. A maior peça do teatro brasileiro foi o duelo dos dois na Câmara. O País parou como no Brasil x Uruguai.
Os dois juntos levantaram a cortina do erro brasileiro. O Jefferson, que tinha passado a vida escondido na própria gordura, se esgueirando por estatais e fundos de pensão, descobriu a deliciosa alegria do sucesso. Ninguém foi mais feliz que o Jefferson naqueles dias, espojando-se na verdade, regozijando-se no papel de herói ao avesso, abrindo o alçapão de ratos.
E Dirceu se deu bem também, apesar da condenação no STF. Ele ficou livre de sua 'revolução' fracassada, finalmente no ansiado martírio, o único sossego dos paranoicos.
Jefferson fez o maior tratado de sociologia política da vida nacional e Dirceu fez uma revolução inesperada - queria um socialismo stalinista e acabou fortalecendo a democracia. 
- Mas, Nelson, qual será o futuro disso tudo?
- Não há mais futuro, rapaz. Mas, garanto que um dia Jeff e Zé terão uma estátua em bronze - os dois sob os braços de uma grande deusa nua: a República celebrando seus heróis. Rapaz, isso é o óbvio: Dirceu e Jefferson salvaram o Brasil!
E desligou.

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