Na Hipocrisia do mundo você se descobre,
e, se encontra, quando vive um grande amor
Vicente Alencar

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

O acordo ortográfico e o peido-mestre


O acordo ortográfico e o peido-mestre

12.12.04_Mouzar Benedito_O acordo ortográfico e o peido-mestre
Por Mouzar Benedito.
Nos tempos anteriores ao euro, quando o dinheiro de Portugal ainda era o escudo, eu estava na cidade do Porto num início de janeiro, um dia frio, e resolvi comprar meias de lã, porque mesmo com botina ferrada meus pés estavam gelados. E me lembrei: meia, em Portugal é peúga.
Fui a uma loja, vi umas meias na vitrine e me interessei por uma que custava duzentos escudos o par. Pedi ao vendedor, ele me perguntou se eu queria peúgas de lã, eu confirmei e ele me mostrou escrito pequenininho que aquelas tinham só 50% de lã. Mostrou outra de lã pura e disse:
― Estas custam cem escudos o par. Então, com o dinheiro que gastaria com um par misto dá para comprar dois pares de pura lã ― aconteceu outras vezes de comerciantes de lá terem esse comportamento completamente diferente dos daqui, que tentam te empurrar as coisas mais caras.
Comprei, sorrindo. E se eu fosse comprar também um cachecol teria que pedir um cachenê. Mas não estava engóvio, quer dizer, morto de frio.
Por que me lembro disso agora? É que remexendo nos meus livros que ficam “escondidos” numa estante, atrás de outros, achei o Dicionário Contrastivo Luso-Brasileiro, de Mauro Villar, que nem lembrava que tinha. Segundo o autor, ele resolveu fazer esse dicionário em 1977, quando foi morar em Lisboa. Ele pediu à empregada portuguesa que deixasse uns legumes na pia e ela os colocou em cima da tampa do vaso sanitário.
São manjadas algumas palavras que têm sentido completamente diferente no português de Portugal em relação ao do Brasil. Basta lembrar que menino lá é puto, cafezinho é bica, fila é bicha e dar descarga é carregar no autoclismo.
Bom, o malfadado acordo ortográfico que veio para “unificar” a língua portuguesa nos países lusófonos unifica mesmo? Antes de entrar no assunto, lembro que foi um meio de jogar muito dinheiro fora, beneficiando, por exemplo, editoras de dicionários. Quantos milhões de dicionários perderam o sentido com esse acordo que entre outras barbaridades acabou com o trema?
E não é só isso. Pedagogos dizem que a existência de livros com grafia “antiga” nas bibliotecas escolares confunde os estudantes. Ele aprende a escrever de um jeito e os livros mostram de outro. Então, todos aqueles livros viram papel velho. Tem que repor tudo!
Com tanta falta de bibliotecas no Brasil, nos damos esse luxo. Quer dizer, nos damos, não. Os burocratas da língua deram. E o governo Lula não barrou essa trolha.
Bom, agora vamos lá, misturar um pouco das nossas palavras e expressões com as que os portugueses usam. Usando um verbo brasileiro, traçar, que tem vários sentidos, conto que num único pôr-do-sol, tracei duas Angélicas. Acha que é contar papo? Pôr-do-sol lá é coquetel e Angélica é uma bebida feita com mosto, bagaceira e açúcar. Foi o início de uma berzundela, quer dizer, bebedeira.
E vou contar uma coisinha, usando algumas das nossas palavras intercaladas com ouras usadas por portugueses: fui a um estaminé, onde, numa cavaqueira com um abébia enquanto tomava pomada e água com picos, ele me disse que gostaria de ir a Glásgua e a Lípsia. Parti para a boa-vai-ela e disse que ele não ia porque era um forreta.
Traduzindo: fui a uma venda onde, num bate-papo com um sujeito enquanto tomava vinho bom e água mineral com gás, ele me disse que gostaria de ir a Glasgow e a Leipzig. Parti para a galhofa e disse que ele não ia porque era um pão-duro.
E essa outra? Veja: um imporém marialva e chalupa, metido a engatatão e ceboleiro, viu uma pêssega de belas catarinas e bimbas e mandou um gandaio, convidou-a para ir atrás de uma machoqueira. Ela teve um vagagaio, ele disse que era ninice. Foi um pesqueiro. Ela deu uma pera no aldrabão e chamou sua malta, que deu uma tareia no pandilha galifão.
Entendeu?
É simples: um magricela machista e pinel, metido a paquerador e bolinador, viu uma mulher boazuda, de belos seios e nádegas e deu-lhe uma cantada, convidou-a parar atrás de uma moita. Ela teve um chilique, ele disse que era frescura. Foi uma confusão. Ela deu um murro no canalha e chamou sua turma, que deu uma surra no sem-vergonha mau-elemento.
Bom, chega de historinhas, mas vamos lembrar mais algumas expressões portuguesas. Treco-lareco é conversa fiada; giraldinha é farra; moita-carrasco é bico calado; Pôr-se a fancos é ficar atento; trunfa é cabeleira, cabelo despenteado; marosca é trapaça e marreco é velho caduco. Almeida é empregado da limpeza pública, gari; fazer um manguito é dar uma banana, e uma cegada de morte é uma baita confusão.
Ah, e se alguém perguntar se você quer um martírio ou um dióspero, não se irrite. Martírio é maracujá e dióspero é caqui.
A coisa vai longe. Vamos parar por aqui, avisando que se lhe contarem que alguém deu o peido-mestre, não significa que ele seja um pindérico, quer dizer, nojento. Peido-mestre é a morte, e dar o peido-mestre é morrer.
***
Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo,Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.

Nenhum comentário: