BAR
ACADEMIA
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É
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É claro que não dividi o espaço urbano com o João
Maciel da Mata Gadelha, conhecido em Fortaleza por João da Mata, famoso
amanuense, que habitava, há anos, no Trilho, uma casinhola de porta e janela,
cor d’açafrão, com a frente encardida pela fuligem das locomotivas que
diariamente cruzavam defronte, e donde se avistava a Estação da linha férrea de
Baturité.
Tampouco cheguei a tempo de viver a Fortaleza
religiosa que lia O Nordeste – jornal da Arquidiocese – e se retirava das salas de projeção
cinematográfica nos momentos em que eram projetadas cenas mais fortes,
principalmente ligadas ao sexo, apesar de a mulata Cyres Braga ter sido a
inspiradora dos sonhos poéticos e eróticos da meninada do Liceu nos anos
quarenta. Era a mesma Fortaleza que teve em Nadir Papi de Sabóia a grande dama
capaz de lhe assegurar uma diretriz cultural, à altura de superar as
inconseqüências chiques daqueles encontros em clubes ou em residências de luxo,
tudo como nos dá conta Blanchard Girão,
em Sessão das Quatro — Cenas e
Atores de um Tempo mais Feliz.
Pude vivenciar, no entanto, na província
sobrevivente a uma Belle Époque que tanto amor e carinho despertou nos
filhos e amantes da terra onde Milton Dias, João Jacques, Juarez Leitão
mostraram o seu talento superior, – pude participar da camaradagem que é também
traço identificador da irreverência do
homem cearense.
Refiro-me à academia que por muito tempo funcionou
na Avenida Tristão Gonçalves, entre as ruas Guilherme Rocha e São Paulo. Não
era nenhuma sucursal da Instituição hoje sediada no antigo Palácio da Luz, e
cuja cadeira número um é consagrada a Adolfo Caminha. Tampouco foi precursora
das várias academias que aí estão a disputar, a ferro e fogo, os entusiasmados
neopraticantes do fisiculturismo, que tanto mais induz a preocupação com o
volume dos músculos corporais quanto mais leva a esquecer o conceito e a função
de neurônio.
A academia de que falo teve inspiração nas origens
do teatro grego, no canto coral de caráter apaixonado (alegre ou sombrio),
constituído de uma parte narrativa, recitada pelo cantor principal, ou corifeu,
e de outra propriamente coral, executada por personagens vestidos de faunos e
sátiros, considerados companheiros do deus Dioniso, em honra do qual se
prestava essa homenagem ritualística. A rotina funcional da instituição poderia
até não refletir, pari passu, a motivação inspiradora; creio,
entretanto, ter sido exatamente o fervor dionisíaco a mover o poeta Caio Cid na
iniciativa de mandar gravar, na placa de identificação da Mercearia Três
Marias, a palavra Academia entre parênteses.
Desconfio, ou melhor, tenho quase toda a certeza de
que, para tão grave decisão, o poeta da Pacatuba se fez assessorar por um outro
aedo, igualmente de fecunda inspiração – o pernambucano Rogaciano Leite, que
certa feita, na Cidade do Rio de Janeiro, acometido de paixonite aguda, compôs
a letra de Cabelos Cor de Prata e a fez chegar às mãos de Sílvio Caldas,
que se encontrava quatro mesas à frente e musicou o poema, depois transformado
em clássico do cancioneiro nacional.
Mas as sessões da nossa academia eram levadas a efeito em local
reservado exclusivamente aos celebrantes, e o acesso ao quadro social se fazia
necessária e alternativamente pelos critérios de indicação ou estágio. Ao
estagiário, era prescrito o interstício mínimo de dois anos ao pé do balcão,
após o que o Presidente de Honra o promoveria à condição de
cliente, se antes não fora jubilado para
amargar, por todo o sempre, a pecha de freguês.
Outra atribuição que o Presidente de Honra tomou
a si e parecia deixá-lo muito satisfeito era a divulgação das crônicas e
poesias assinadas por seus clientes. Lembro-me bem do entusiasmo com que ele
afixou na parede um quadro com o soneto PARÁFRASE (De um motivo chinês, do
livro “Flauta de Jade”) adiante descrito, da lavra de Caio Cid:
Maldigo a chuva,
bárbara e insistente,
Que tamborila sobre o
meu telhado;
Maldigo o vento mau,
impenitente,
Que deixa meu jardim
todo esfolhado.
A sós, junto à
lareira. De repente,
Surge na porta o teu
perfil amado
E vens ficar, modesta
e sorridente,
Cabelos soltos,
trêmula a meu lado.
Bendigo então a chuva,
que te obriga
A despir, com pudor, ó
minha amiga,
A roupa que em teu
corpo se enregela.
E bendigo, depois, o
vento frio
Que entra na casa, em
áspero arrepio,
E apaga a luz agônica
da vela...
Do que foi outrora a nossa irreverente academia,
também conhecida na cidade pela alcunha de Bar do Aurelino, nada mais existe.
Notadamente agora, que a Câmara de Dirigentes Logistas – CDL e a Prefeitura
Municipal foram acometidas da febre da demolição, sob inspiração do dito
esforço de resgate do centro da cidade.
De qualquer maneira, justificado sempre foi meu
sobrosso sentimental, despertado há quatro anos (ou mesmo antes), quando
tiveram início as obras de implantação do metrô, que deverá ficar pronto sabe
Deus quando, nesta terra sem memória e que faz questão de não se lembrar.
(Januário Bezerra)
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