MUDANÇA HISTÓRICA
A integração entre as economias
nacionais cresceu. A globalização avançou. A integração social, cultural e
política disparou. Fluxos migratórios e meios de comunicação global instantânea
fortaleceram contatos. Influências políticas recíprocas, ainda que assimétricas,
foram fortalecidas, dando lugar ao globalismo. Trocas comerciais impulsionaram
as economias por força das vantagens comparativas (David Ricardo, 1772 – 1823).
O fluxo de mercadorias, capitais,
tecnologia e pessoas promoveu transformações significativas. O equilíbrio entre
as potências foi alterado. O “centro de gravidade” da economia mundial se
deslocou para a Ásia, especialmente China e o Ocidente declina, o que faz lembrar
a armadilha de Tucídides, conceito de Graham T. Allison (1940 – vivo), segundo
o qual, quando uma potência dominante é ultrapassada por uma rival as duas
tendem a guerrear entre si. As condutas humanas e das nações não são como os
fenômenos da natureza. A política não é um fenômeno do tipo determinista e as
ciências humanas não são nomológicas, como demonstra Karl Popper (1902 – 1994).
A tese de Allison expressa apenas uma tendência, mas não deve ser ignorada.
As sanções decretadas contra a Rússia em
razão da invasão da Ucrânia, mostraram o poder econômico da Otan, quando coesa.
A Rússia se preparou para o embate. Acumulou reservas. É exportadora de trigo.
Tem autossuficiência energética, base industrial de defesa com a cadeia de
produção mais completa do mundo e preparou a triangulação comercial com a China
para substituir as compras e vendas do Ocidente. A dependência europeia do gás
russo mostrou a vulnerabilidade da integração econômica. A economia se beneficia
com as vantagens comparativas. Até os EUA, exportadores de hidrocarbonetos
fósseis, importam alguns tipos de petróleo e tiveram que beijar a mão do
Nicolás Maduro e financia-lo comprando o petróleo venezuelano.
A Europa voltará a usar energia nuclear
para diminuir a dependência do gás russo. A segurança das nações vem antes das
vantagens comparativas. A responsabilidade do Brasil pela mudança climática é
muito menor do que a da China, EUA, União Europeia, sendo menor ainda que a da
Rússia ou Índia. Mas fomos nomeados os vilões do enredo climático. O debate
sobre a soberania brasileira na Amazônia foi posto pelos presidentes da França
e dos EUA. Intelectuais, megaempresários e líderes políticos do Collegium Internacional pregam a
limitação da soberania das nações (Sacha Goldman, na obra “O mundo não tem mais
tempo a perder”, prefaciada por Fernando Henrique Cardoso).
A substituição de
importações deve ser repensada. O reexame da relação entre o custo e os
benefícios de tal opção não pode ser descartado. Tirar o Brasil do Swift nos colocaria
de joelhos. A nossa indústria é excessivamente dependente de componentes
importados. Não temos um Sistema de Posicionamento Global (GPS) próprio. Nossa
Base Industrial de Defesa agrega muitos componentes estrangeiros, uma
vulnerabilidade econômica comum a quase todos os países. Mas os que são
militarmente mais fortes não ficam indefesos. Considerando território, população,
economia e parque industrial deveríamos buscar mais autossuficiência e mais
poderio bélico. Nicolau Maquiavel (1469 – 1527) advertiu: o primeiro dever do
príncipe é preparar a guerra, isto é, si
vis pacem, parabelum. No mundo a força é a ultima ratio. No passado Rui Barbosa (1849), Olavo Bilac (1865 –
1918) e outros criaram ou participaram da Liga de Defesa Nacional. Hoje não
temos nada semelhante.
Fortaleza, 9/3/22.
Rui Martinho Rodrigues
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